Edição nº 22, março de 2008
 
Pasquale
Número dá algum curso?

Recentemente, um dos grandes jornais do país publicou esta frase: “Número cada vez maior de empresas dão diversos cursos a seus funcionários”. Que lhe parece, caro leitor?

Por Pasquale Cipro Neto
  Vicente Mendonça


Essa frase lembra muitos dos trechos jornalísticos incluídos em questões de vestibulares importantes, como os das diversas universidades federais do país e o da Unicamp. Em algumas dessas questões, pede-se aos candidatos que analisem a dificuldade de compreensão gerada pela má organização sintática. Em outras questões, pede-se ao candidato que reestruture determinado trecho, “dando a César o que é de César”, ou seja, estabelecendo as devidas relações entre os termos que compõem o período.

O trecho jornalístico que aparece logo no início desta coluna parece combinar com o dito popular que se refere a “pôr os pés pelas mãos”. Leiamos a frase novamente: “Número cada vez maior de empresas dão diversos cursos a seus funcionários”. Que lhe parece? A que termo se refere a forma verbal “dão”, flexionada na terceira pessoa do plural? Quem redigiu a frase certamente quis dizer que as empresas dão os tais cursos. O problema é que a palavra “empresas” é subordinada à palavra “número” (pela preposição “de”). Na verdade, o que temos aí é a expressão “número (cada vez maior) de empresas”, cujo núcleo é... Qual é? É ”número”. E será que “o número” de empresas “dão”?

Vamos começar tudo de novo. Parece claro que o número não dá nada, não dá coisíssima nenhuma; quem dá (os cursos) são as empresas. E o que é cada vez maior é o número de empresas (que dão os tais cursos). Salvo engano, o que se quer dizer se traduziria com uma frase muito parecida com esta: “É cada vez maior o número de empresas que dão diversos cursos a seus funcionários” (ou “Não pára de crescer/aumentar o número de empresas que dão diversos cursos a seus funcionários”).
E por que o primeiro verbo (“é” ou “pára”) fica no singular e o segundo (“dão”) é flexionado no plural? Porque o que é cada vez maior (ou não pára de crescer/aumentar) é o número, e “número” é singular. A forma “dão” é posta no plural porque se refere a “empresas”.

Veja outro caso semelhante, também extraído de texto jornalístico: “O número de pessoas que procuraram o serviço no fim de semana ficou abaixo do previsto”. A forma verbal “procuraram” é posta no plural porque se refere a “pessoas”; “ficou” (no singular) se refere a “número”. Afinal, o que ficou abaixo do previsto foi o número (e foram as pessoas que procuraram o serviço).

Bem, voltando à frase inicial, é preciso lembrar que não é possível adotar como proposta de correção algo como “Número cada vez maior de empresas dá diversos cursos a seus funcionários”. E por que não é possível, se o núcleo de “número (cada vez maior) de empresas” é “número”? Já sabemos por quê: não é o número que dá os tais cursos; definitivamente, o número não dá nadinha de nada.

A prática (disseminada no jornalismo) de “enxugar” ou de escrever frases e textos curtos muitas vezes gera “monstrinhos”. A solução é conhecida: nada mais do que a simples (e atenta) releitura. Orações que têm por sujeito expressões iniciadas por palavras como “número”, “nível”, “preço”, “custo” e tantas outras devem ser lidas e relidas com o máximo cuidado, para que não se construam frases como “O preço dos imóveis residenciais caíram” ou “O custo dos gêneros alimentícios subiram”.

No primeiro caso, o verbo deve concordar com “preço”, que é o núcleo do sujeito; no segundo, com “custo”. Teríamos, então, estas construções: “O preço dos imóveis residenciais caiu” e “O custo dos gêneros alimentícios subiu”. Nos dois casos, a presença das formas errôneas (“caíram” e “subiram”) certamente se explica pela proximidade do verbo com termos flexionados no plural (“imóveis residenciais” e “gêneros alimentícios”, respectivamente). É justamente por isso que é necessária a (re)leitura atenta em casos como esses.

Pasquale Cipro Neto é professor de Língua Portuguesa, idealizador e apresentador do programa Nossa Língua Portuguesa, da TV Cultura