Edição nº 18, novembro de 2007
 
Capa


Jailton Garcia

Um dia o caldo entorna

A literatura do escritor e rapper Ferréz conquistou o respeito da periferia e tem a classe média como maior consumidora. Mas ele alerta: “o outro lado” não sabe nada da “quebrada”. E sem um entendimento, em breve a periferia terá mudado tanto que nem ele mais vai poder falar

Por Tom Cardoso e Xandra Stefanel

A polêmica é conhecida: Luciano Huck escreveu artigo na Folha de S.Paulo queixando-se da violência paulistana e do Rolex roubado. Ferréz, escritor, morador do Capão Redondo, escreveu em seguida, no mesmo jornal, que diante do caos social todos saíram ganhando, “o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio”. O texto, peça ficcional do ponto de vista do “correria”, não foi iniciativa de Ferréz, mas um pedido do jornal, embora nem o ombudsman da Folha pareça ter sido informado disso. De lá para cá, Huck foi capa da revista Época, recebeu elogios por manter uma ONG, a promessa do delegado de que o assaltante seria preso, julgado e condenado, e um empresário, solidário, se prontificou a presenteá-lo com um novo Rolex. Do outro lado da cidade, Ferréz segue a vida sem mimos. Nada que tire o ânimo do escritor, que começou a escrever contos e poesias ainda garoto, enquanto vendia vassouras, e hoje é uma espécie de embaixador cultural do Capão Redondo. Autor de sucesso com Capão Pecado, Manual Prático do Ódio, Ninguém É Inocente em São Paulo, Inimigos não Mandam Flores e Amanhecer Esmeralda, é comerciante bem-sucedido e criador da 1DASUL, marca de roupa produzida exclusivamente no bairro. Três reuniões com empresários foram imediatamente canceladas. Até a conversa com a Revista do Brasil, em 18 de outubro, nenhum repórter o havia procurado. E não se deslumbra. Trabalha duro vendendo bonés, camisetas e mochilas e juntando idéias para seu próximo romance. Em meio à polêmica, algumas portas se fecharam em sua missão de batalhar patrocínio e espaço para um programa de televisão. Quer entrevistar personalidades no próprio Capão. Mas, as caras habituadas a freqüentar as capas de revistas de “celebridades”, nem pensar: “Um cara que monta uma ONG cretina dessa para ganhar ibope e ainda se prevalece sobre a ONG não é exemplo pra mim”, avisa. “Tem gente do outro lado que é legal, tem consciência, tem um pé aqui.”

Você saiu prejudicado da polêmica com o Luciano Huck?
A gente quer fazer um programa de televisão e está com o piloto. Eu tinha três reuniões importantes marcadas que foram desmarcadas. A conversa, o diálogo que eu tinha do lado de lá, acabou tudo. Tinha duas emissoras que iam conversar comigo e me cortaram.

Você entrou em contato com o Luciano Huck em algum momento?
Nem quero. Um cara que faz meu povo subir numa latinha, ficar se equilibrando para poder pagar dívida e que dá valor para um homem por jogar argola nos bagulhos não é um exemplo que eu quero conhecer, não. Um cara que monta uma ONG cretina dessa para ganhar ibope e ainda se prevalece sobre a ONG não é exemplo pra mim. Tem muita gente melhor que eu quero conhecer.

Você começou a ler e escrever aos 7 anos. Vê isso acontecendo aqui no Capão Redondo e na periferia como um todo?
Não do jeito que eu queria que fosse. Pouca criança escreve, poucas lêem. Como que uma criança vai gostar de ler se a escola não passa uma matéria direito e se o amor à literatura não é dado? Eu sou uma exceção.

Seu primeiro livro esgotou em um mês. A que credita esse sucesso, quem é seu público?
Nunca tinha sido feito nada para eles, tá ligado? Se você queria ler sobre esse mundo, não encontrava nada. Porteiro, cobrador começaram a ler por causa disso. Eu tenho muito público da classe alta, da classe média – meu livro vende muito mais na Fnac que em outros lugares – e tem o público aqui da quebrada, a periferia. Aonde eu vou tem um cara dentro da comunidade que leu. Sou bem querido em algumas partes porque fui o primeiro que chegou trazendo a literatura pra dentro do rap. Quando eu escrevo, penso se o cara que nunca leu vai entender. Dia desses eu tive uma experiência da hora: estava lendo pra uns moleques em LA, liberdade assistida, e aí catei uns trechos do meu livro novo (Ninguém É Inocente em São Paulo); quando terminava um conto ficava o maior silêncio, e os caras: “Eita, porra!” Pros caras ficar em silêncio e pagar um pau é difícil. Ninguém perguntou “o que você quer dizer com aquilo?” Eu escrevo pra esses caras. O resto é gente que compra pra saber um pouco a realidade.

Quais são suas referências literárias?
Quadrinhos. Comecei a escrever com 7 e aos 12 passei para a poesia. Eu acho que os quadrinhos me motivaram bastante, e depois os livros: Herman Hesse, Bukowski, João Antônio, Plínio Marcos, Tchecov – embora fosse difícil, eu entendia de boa. O que mais me estimulou mesmo foi Herman Hesse. Quando lia quadrinhos eu lia Lourenço Mutarelli, que me mostrou que dava para abrir mais o leque, não precisava ficar só nos super-heróis. Eu nunca li só literatura marginal. Sempre lia outros caras também, o que eu podia pagar no sebo. Se eu podia comprar um livro do Flávio Pereira, comprava Flávio Pereira, ecologia, tá ligado? Se podia comprar de Biologia, Matemática, Português, ia comprando e descobrindo o que gostava ou não. Eu li muito Edgar Rice Burroughs, o criador do Tarzan. Tinha conta na banca de jornal. Todo mês ia lá e deixava o salário todo.

Muita gente comprava o tênis importado e você comprava livro.
Na minha época, muita gente tentava comprar o pão. Os moleques trabalhavam no ferro-velho para poder comprar pão e eu trabalhava pra comprar gibi.

Você disse que tem gente que compra seus livros para ver a realidade. Ela já não está bem visível?
Ninguém sabe nem o que está acontecendo, totalmente de chapéu atolado.

O que está acontecendo?
Não posso falar. Tem que viver. A minha vantagem na guerra é saber o que eles não sabem. É que nem você perguntar pra um cara desses como é que se ganha dinheiro, como manter o dinheiro por tanto tempo sem acabar. Como? Os caras falam sobre tudo, mas sobre o seu dinheiro não. A gente é a mesma coisa. Para saber o lado de cá, só morando.

E o que você acha do governo Lula, é bom ou assistencialista?
Quanto ao governo Lula eu me sinto à vontade pra falar bem e mal porque a gente que pôs ele lá. É nossa família. Já a elite tem que ficar caladinha porque ela não fez nada. Eles falam tanto, mas esqueceram do Fernando Henrique, que foi um governo omisso que vendeu tudo, tá ligado? Semana passada eu e uns caras da favela estávamos vendo o novo plano do Lula. E a gente falou: “Ô, tá melhorando, tio, a gente tá tendo contato com o governo, tá sabendo das coisas que estão acontecendo”. O contato já é uma coisa importante. O PT pelo menos tem esse contato. PT mudou? Muito, muito, meu. Tirou muito militante e colocou muito cara que não é militante. Mas ainda é o PT, tá ligado? Apesar de eu não ser de nenhum partido, trabalhei para o governo estar lá. Trabalhei para a Marta estar na prefeitura. O dia que ela não foi eleita foi a primeira vez que eu chorei depois de uma eleição. A gente que luta pela comunidade sabe o papel que ela teve. Todo mundo chama a mulher de dondoca, mistura problema pessoal com política, esse povo que vive novela 24 horas e acha que político também é novela. A Marta teve muito voto nas comunidades porque ela foi realmente uma prefeita excepcional, que faltou pouco para ser a perfeição.

E o Kassab?
O Kassab virou gíria entre os moleques: “Seu filho do Kassab!” Os caras “tiram” o Kassab. Mas eu não tenho nada para comentar porque eu nem senti a prefeitura dele aqui.

O Bolsa Família mudou alguma coisa aqui?
Eu acho que você criticar, chamar de assistencialista quando você está do outro lado da situação é o maior mamão, mano. Eu tenho um conto que chama A Revolução e O Pão. Um fala que você não pode dar o pão pro cara, tem que fazer o cara lutar pelo pão. E o balconista fala: “Mas ele tá com fome, mano. Todo dia ele vem aqui e eu tenho que dar um copo de café pra ele”. E o cara fala: “Não, tem que lutar por um pão com mortadela e queijo, não um pão com manteiga. Você tá pensando pequeno”. E o dono do bar chega e fala que está no bar há 20 anos: “Se eu não desse pão para esse mendigo, ele já teria morrido de fome”. Então, falar de assistencialismo é mamão. Quantas terras existem hoje griladas, quantos prédios estão alugados, quanto os caras ricos faturam e não volta nada para a sociedade? Isso é assistencialismo! Quanto os bancos faturam? Pobre se junta e é formação de quadrilha; rico é conglomerado, lobby. Só que a elite está certa. Não deixa a gente avançar, não. Nós somos muitos. Um dia o caldo entorna.

O Mano Brown disse no Roda Viva que traficante é comerciante. Você concorda?
Eu concordo, mas tenho uma opinião paralela. Eu acho que o traficante é o distribuidor. A droga já está vendida pela televisão, pelo rádio e pela mídia. O cara só vai lá pegar e entregam na mão dele. Quem faz a neurose na cabeça do moleque para ele usar droga não é o traficante, é todo o sistema. O sistema cria a frustração, cria a necessidade da droga. O traficante entrega.

Você é a favor da descriminalização das drogas?
Eu sou da opinião do Gog (líder de um grupo de rap de Brasília): o dia que liberar arroz e feijão para todo mundo, aí você pode liberar todo tipo de droga. O dia que um moleque puder escolher entre a comida e a droga, libera os dois. Se ele não puder escolher, não. Mas a criminalização que acontece de o cara ir buscar um baseado, apanhar e receber um 16, eu não acho justo.

O filme Tropa de Elite foi considerado fascista por alguns, de fazer apologia à tortura. Muita gente aqui assistiu ao DVD pirata. Houve uma visão ainda mais crítica da polícia?
Eu acho que as pessoas dão muita importância a um filme. É só um filme, uma obra de arte. O cara daqui assistiu ao barato como se assiste a Malhação. Não saiu com pensamento de nada, não. Não vejo nenhum falando “nossa, meu, depois disso mudou minha visão da polícia”. Eles já sabem qual que é a realidade. É como Cidade de Deus, todo mundo queria que eu metesse o pau. Como? Se eu gostei do filme? É um filme, mano! É como esse texto meu, na Folha. Só causou tanta polêmica porque os caras não me vêem como escritor, mas sim como um cara da favela falando pelo bandido. Se fosse o Marçal Aquino, qualquer outro cara, todo mundo ia falar: “Nossa, que texto bem escrito”.

O fato de você não sair daqui, mesmo tendo condições de sair, não reforça o sentimento de que você não sai porque está identificado como porta-voz?
Eu não saio porque eu não quero ficar trancado em um apartamento em Moema com um poodle. É uma vida de bosta!

Há algum sentimento de culpa da pessoa que nasce no Capão, no Jardim Ângela, em se mudar para um bairro burguês e perder a identidade com sua origem.
A perda da identidade não passa por essa mudança geográfica. Não tem sentimento de culpa. A maioria é sem escrúpulo, mesmo. Quer ir? De boa. Aqui o cara começa a fazer faculdade e já vaza. Acha que a quebrada não tá boa pra ele. Então o lugar é muito desvalorizado. E seria importante pessoas que deram certo ficar. O sujeito estar andando na rua e falarem “aquele ali é médico”. Quantos caras da favela convivem com um médico? Aí vai querer ser o quê? Tem que ter exemplo. Eu tenho na minha loja 30 livros lançados por moleques daqui. Quer orgulho maior? Eu fui para a Alemanha e uma pessoa disse que, se eu me candidatasse a uma bolsa de estudos lá, eu conseguia. O que eu vou fazer em um ano na Alemanha? Quando eu voltar pra cá o ritmo está outro, vou ter que aprender tudo de novo.

Você tem CDs lançados e uma grife, a 1DASUL. Se alguém piratear seus CDs e suas peças, vai ficar chateado ou orgulhoso?
Ao mesmo tempo que a pirataria prejudica a gente porque não consegue mais distribuir CD, e o rap saiu perdendo porque a maioria que escuta é pobre, esse é o público que mais compra pirata. É foda pra nós. Eu já tive peça da 1DASUL pirateada por um comerciante de um shopping. Quebrei o pau com ele. Ele dizia: “Mas é comum, eu tenho camisa de vários aqui do rap”. E eu disse: “Os caras passando dificuldade e você vendendo roupa dos caras? A minha não”. Agi pela Justiça, arrumei um advogado, fui lá e tirei tudo. Agora, quando vejo um DVD ou um CD meu, tenho orgulho porque demonstra o sucesso que faz. Eu falo para os artistas: tem que ter orgulho, e não ficar puto. Ninguém pirateia coisa que não faz sucesso. E outra: você já é roubado pelas gravadoras mesmo, então tanto faz, pelo menos está na rua.

Você já recebeu convite para a carreira política?
Já. Nego todos. Odeio. Eu tenho um bordão, o político é que nem um cidadão andando armado: ele está planejando alguma merda.

Mas isso contradiz o que falou sobre a Marta...
É, mas eu acho que tem um ou outro político que está na caminhada para resolver o problema. Eu sinto uma verdade no Suplicy, na Soninha. Mas é um no meio de centenas, mano.

E você acha que não faria diferença?
Eu não duraria um mês porque ia tumultuar muito. E sou muito mais importante fazendo o trabalho onde as pessoas não querem fazer. Indo aos lugares aonde ninguém quer ir, fazer palestras onde ninguém faz.

Mas, então, como mudar essa realidade que você critica? O que você faz?
Eu montei uma marca que é feita aqui no bairro, as peças são vendidas aqui, estamos patrocinando os artistas e esportistas daqui. É o contrário da Nike, que pega o cara consagrado. A gente pega o moleque que ninguém acredita. Temos uma biblioteca comunitária, a Exodus, onde eu dou aula de Literatura, o Brown dá a aula dele também e o Negredo ensina rap, DJ, picape.

O Brown dá aula do quê?
Eu não posso falar, mas é o maior legal. Não é nada que ninguém imagine. Aí você sente que está fazendo diferença porque as crianças curtem. Te pegam na padaria e te cobram: “Vai ter aula, tio? Você vai deixar eu ler? Eu vou ler, né, tio?” É louco. Vários fazem bagunça, mas tem uns cinco ou seis que lêem e, se você não deixar ler, o pau fecha. Aí você pensa: “Caralho! Estão brigando para ler!” Em todo show ou palestra que faço, levo um livro e planto a idéia da biblioteca. Outro dia levei o livro do Arnaldo Antunes e falei: “É o primeiro livro da biblioteca, quem vai tocar?” Ninguém levantou a mão. Perguntei à responsável pelo centro comunitário se ela não podia ir ali uma vez por semana e deixar os livros para as pessoas verem. Ela concordou. Então eu disse: “Pronto, a biblioteca tá aberta”.

Mas como a loja pode ajudar a comunidade?
Porque é um orgulho você usar a roupa da quebrada. Antes você vinha no bairro pra quê? Agora você pode vir ao Capão pra comprar um livro feito aqui, uma roupa.

A grife é acessível para as pessoas que vivem aqui?
É acessível na medida do possível, porque eu não faço coisa de má qualidade. Se uma blusa da Onbongo é 200 reais, aqui é 90, mas é a mesma qualidade. Eu podia vender uma de qualidade baixa por 60, mas aí o cara não ia dar valor, não ia usar.

Qual é a diferença da sua grife 1DASUL para as da Oscar Freire?
Moleque aqui olha carro o dia inteiro para poder comprar um boné. Quando ele põe o boné na cabeça, ele está usando o nome do bairro dele, não tá querendo ser ninguém, só ele mesmo. A camisa dele tem um cara preto e ele diz: “Esse sou eu. Eu não preciso sonhar com ninguém. Eu sou o cara”. Ele chega em outro bairro e levanta a cabeça, e não é porque o bairro tem criminalidade, é porque aqui tem uma marca do bairro. Ele tem orgulho de falar: “É minha mãe que faz essa roupa aqui, minha mãe é foda!” Então, tem muitas diferenças.

Você é otimista em relação ao bairro?
Eu não sou muito otimista, não. Mas eu consigo ver a realidade. A gente está conquistando os espaços. Alguma coisa melhorou. Mas a evolução é pouca. O ritmo do bairro mudou, mas algumas coisas continuam a mesma coisa. Quem diz que tem menos bandido nas ruas porque estão prendendo mais gente está totalmente errado. Tem menos crime porque algumas facções começaram a agir para cometer menos crime nas comunidades. A organização do crime mudou na comunidade. O governo está aproveitando os índices das facções para dizer que diminuiu o crime. Não existe salvação miraculosa. O crime que se mexeu para poder fazer a cena, e não o governo.

O governo diz que desmantelou o PCC, outros dizem que na verdade o que há é um acordo. E o que você acha?
Se desmantelou, então nós não estamos vivendo no mesmo país.

Pode acontecer de novo uma revolta como aconteceu com os ataques do PCC em São Paulo?
Não sei, mano. Só sei que, quando for para acontecer, a gente da comunidade fica sabendo antes, lá fora a gente não prevê. Eu consegui prever a outra e escrevi na Caros Amigos dois meses antes de acontecer. Senti o movimento aqui e escrevi. “SP PCC” é o nome da matéria. Eu não sei explicar. Quando fica calado demais, muito silencioso... você sente.

Você topa conversar com o “lado de lá”? Colocaria patrocínio na sua marca, por exemplo?
Jamais. E os moleques nem iam usar a marca se tivesse patrocínio, algo de fora. Os caras do outro lado já tentaram comprar a grife de mim. Não tem preço. Eu não faço nada por dinheiro, não preciso de dinheiro. Eu não tenho vontade de ter nada além do que já tenho. Depois que, com 15 anos, um cara meteu um oitão na minha cara e quase atirou, eu pensei: estou no bônus, o que vier é lucro.

Os Racionais não vão à Globo de jeito nenhum. Você não acha que você aparecer em um canal e difundir seu trabalho para milhões não faz a revolução que você quer? Cidade dos Homens, Antônia não tiveram algum efeito?
Não tem efeito nenhum. Alguém vai te parar na rua e dizer: “Mano, eu vi um capítulo da Cidade dos Homens e depois desse dia eu mudei minha vida”? Eu já escrevi um capítulo para o Cidade dos Homens, mas saí no meio da produção. É show business, não tem efeito nenhum. O Antônia também não. O cara lotar um estádio com 50 mil pessoas sem ter saído em nenhum lugar não é mais foda? Não é mais foda o cara vender 1 milhão de discos sem ter ido em TV nenhuma? O cara do rap ir na televisão não causa efeito nenhum. O efeito da luta nossa vem de outro lugar. É o efeito do boca-a-boca.

Como a imprensa mostra a periferia hoje?
A imprensa não mostra, não sabe o que está acontecendo, não retrata a periferia de jeito nenhum.

E esse quadro da Regina Casé na periferia?
É a mesma coisa que botar qualquer turista australiano dentro da favela. É superficial. Ela é boa apresentadora, mas não conhece as comunidades em que ela vai.

E esse programa que você está tentando colocar no ar?
É um programa de entrevista que vai trazer caras do boxe, do rap... para ser entrevistados dentro do bairro. É um programa-piloto ainda. A idéia é trazer o cara de fora para o nosso mundo para ser entrevistado, fazer o cara ver o ponto de vista daqui.

Traria o Luciano Huck?
Eu não quero nem saber do nome dele. Tem gente do outro lado que é legal, cartunista, desenhista, escritor. Gente que tem consciência. Eles estão do outro lado, mas têm um pé aqui.

Quem é o “outro lado”, a cara da elite?
Tem cara da elite que mora aqui no Capão, ele toma dinheiro da mãe para pôr gasolina na moto dele. Eu não sei falar para você qual é a cara porque eu não vivo esse mundo. Aí eu arriscaria fazer o que eles fazem conosco.

Você acha hoje que a gente vive numa guerra não-declarada?
Não sei se é uma guerra, mas a gente vive numa situação bem complicada, e a gente está falando, cantando, escrevendo, respirando isso há muito anos. A gente já paga um preço muito alto por ela, e o outro lado também está começando a pagar, infelizmente.

E o tráfico?
Ninguém fala, mas o tráfico vem da elite também. Quem comanda tantos milhões do tráfico? Pobre não tem avião, refinaria de cocaína, não tem como fabricar arma. Não acho que a culpa seja de um ou de outro. Se a gente não achar meios de se entender... Eu tenho falado sempre... Daqui uns anos eu não vou mais poder falar. A periferia está mudando tanto que você não vai mais ter acesso a mim. Vai se estabilizar uma coisa que é diferente. Vai mudar.

Você já foi vítima de “correria”? Como se sentiu?
Já roubaram meu carro e achei justo. Se o cara roubou meu carro, precisava de dinheiro pra alguma coisa, pode ser droga, o que for, necessidade dele. Ele deixou minha vida e levou o carro. Fiquei frustrado, triste, mas não podia escrever uma carta pro jornal reclamando. No outro dia eu fui na comunidade onde achava que o cara morava e comecei a fazer um trabalho com as crianças de lá, para que não virem bandido amanhã. Não abri ONG nem nada. Só vou lá, troco idéia com as crianças, leio pra elas. Se a gente deixar de montar coisa só pra brilhar a imagem e começar a fazer mesmo, de verdade, a coisa vira. Tem pessoas do lado de lá que são boas, querem fazer um trabalho, participar dessa mudança, e a gente tem que orientar pra que trabalhem com as pessoas certas. Tem muita coisa legal acontecendo na quebrada, saraus, ONGs verdadeiras, oficinas, bibliotecas, shows de rap, pagode.

Quais são seus planos?
Estou fazendo um romance há três anos que vai sair o ano que vem, criar minha filha Dana, de 6 meses, de boa, e passar mais informação, abrir mais bibliotecas comunitárias, ter mais espaço para falar coisa legal e espalhar a palavra.

Você tem idéia de qual é a cura para esses males que você apontou?
O estudo é a cura. O estudo é o escudo, resumindo tudo. Se você tem informação, você não sofre por ser homossexual ou gordo; se você tem informação, você sabe se comportar numa entrevista para arrumar emprego, você sabe falar com político. Se você tem informação, você quer ser um pintor em vez de pintar parede, estudar decoração para ganhar mais. É a salvação.

Como seria se você não tivesse tido informação?
Eu não vou falar que eu estaria matando, roubando, porque eu nunca dei pra isso, mas eu estava atrás do balcão servindo café para vocês, de repente. É no máximo o que daria para ser, balconista. Se bem que hoje eu ainda sou, só que da minha loja (risos).