Edição nº 35, maio de 2009
 
Entrevista
Por Paulo Donizetti de Souza

Fábrica de líderes

Sérgio Nobre fala da responsabilidade de dirigir o sindicato que apresentou Lula ao Brasil e que completa 50 anos em maio


A região do ABC já era um polo industrial nos anos 1950, quando Juscelino Kubitschek lançou seu plano de metas, “crescer 50 anos em 5”. Servida pela ferrovia que ligava a capital paulista ao porto de Santos, pela via Anchieta e por uma população já familiarizada com a lida na indústria, a região foi escolhida pelas primeiras montadoras multinacionais que para cá viriam, com privilégios para São Bernardo do Campo – como Willys (depois unida à Ford), Mercedes-Benz, Volkswagen, entre outras –, dando início à cadeia produtiva que se tornaria a mais importante para a região e para o país.

Estimulado pela chegada da indústria automobilística, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema é fundado em 12 de maio de 1959, desmembrando-se da entidade que servia a todo o ABC e atuava desde 1933 – a iniciativa da reunificação seria retomada em 1993. Desde os anos 1970, quando surgiu Luiz Inácio Lula da Silva, o sindicato vem se destacando pela formação de novas gerações de dirigentes de projeção nacional, como Jair Meneguelli, Vicentinho, Guiba Navarro, Luiz Marinho, José Lopez Feijóo. Cria dessa fábrica de lideranças, Sérgio Nobre ingressou na categoria em 1980, como aprendiz de ajustador mecânico do Senai pela Scania e como aprendiz de militante diante da liderança de Lula. Na Mercedes-Benz, para onde foi em 1986, debutou como representante eleito da categoria ao integrar a Comissão de Fábrica. Três anos depois entrou para a diretoria do sindicato e, no ano passado, sucedeu Feijóo, tornando-se seu 11º presidente desde Lino Ezelino Carziel, em 1959.

Aos 43 anos, Sérgio reconhece a grande responsabilidade de dirigir a entidade que apresentou ao Brasil um dos principais líderes sindicais do mundo e o primeiro presidente da República de origem operária de sua história. Mesmo assim, e mergulhado numa agenda de trabalho intensa, não abre mão dos estudos no último ano do curso de Relações Internacionais da Fundação ABC e da convivência com a mulher, Juraci, e os filhos Augusto e Marcelo. Sérgio sabe que os desafios impostos ao movimento sindical são gigantescos, e um deles é recuperar a própria essência da luta sindical, que, lembra ele, surgiu após a Revolução Industrial com objetivos de melhorar a vida do trabalhador e caminhar para um mundo mais justo e equilibrado. “Essa segunda questão se perdeu e precisamos recuperá-la; é o tal do desenvolvimento sustentável. Está aí o debate futuro.”

É possível comparar os momentos do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, hoje e há 50 anos, quando a entidade surgiu?
Eu divido a trajetória do sindicato nesses 50 anos em três fases. Da fundação, em 1959, ao início dos anos 1980 foi a luta pela redemocratização do país. O empresariado era mais truculento, arcaico, e negociação naquele período era praticamente nenhuma. Dentro das fábricas havia muita repressão, refletindo um pouco o ambiente na sociedade, com o regime militar. Na greve de 1978, mais do que a razão econômica, pesava a luta pela democracia. O segundo período, de meados dos anos 1980 até o final dos anos 1990, tem a luta dos sindicatos contra o neoliberalismo. O grande tema nesse período foi a defesa do emprego.

Dois dos verbetes mais ouvidos nos anos 1990 eram “neoliberalismo” e “reestruturação produtiva”.
Exatamente. O neoliberalismo, para funcionar, privilegia os interesses do mercado, desregulamenta as funções do Estado e, inclusive, o mercado de trabalho. Para isso, precisava enfraquecer os sindicatos. O movimento sindical e os movimentos sociais foram fortemente criminalizados. A defesa do emprego e dos direitos ocupou a agenda e, mesmo entre os sindicatos mais fortes, a atuação era na defensiva. Aqui esse modelo afetou em parte a gestão do Vicentinho (1987-1994), as gestões inteiras do Guiba (1994-1996) e do Luiz Marinho (1996-2002) e chegou até o início da do Feijóo (2002-2008).

E aí muda de fase.
A gestão atual já começou (em 2008) num momento totalmente diferente. Se você tem a economia crescendo e tem democracia, abrem-se condições para o sindicato discutir a vida do trabalhador não só dentro de fábrica, mas também a sua qualidade de vida e do lugar onde vive. Temas como segurança pública, saúde, educação, formação profissional, enfim, cidadania ganham espaço extraordinário na agenda do sindicato. Portanto, são 50 anos de história marcados por momentos bem distintos.

Como você lida com o desafio de ser presidente de um sindicato que tem como maior expressão um líder como Lula?
O sindicato, sob a liderança do Lula, foi decisivo no momento em que esteve à frente daquele processo muito rico na história do país, que desencadearia, inclusive, um período muito fértil para a formação de novas lideranças, de novas lutas sociais. Às vezes as pessoas tendem a cometer o erro de pensar que o sindicato enfraqueceu porque antes tinha muitas greves e hoje não tem mais. Ao contrário. Naquela época você não tinha espaço nenhum de diálogo, qualquer demanda tinha de resolver na força, senão não conquistava. Hoje o sindicato está mais forte, 70% dos trabalhadores da categoria contam com organizações no local de trabalho, onde o dia todo se discute e se negocia, de problemas da higiene a assuntos complexos como a estrutura salarial, a gestão, a crise financeira. As demandas de hoje têm espaço para soluções negociáveis. Quando se tem isso, o número de greves diminui. É uma evolução.

Na verdade, o povão nunca foi muito chegado a uma greve, a um confronto, não é? Aliás, muita gente ainda culpa as greves pelo êxodo de indústrias da região?
A desinformação existe ainda, mas não tão forte quanto há 10, 15 anos. As empresas saíram daqui porque a elite que governou o Brasil não tinha projeto de desenvolvimento, e o país não crescia. Governadores de Norte a Sul vinham ao ABC tentar atrair as empresas para o próprio estado, desindustrializar o ABC e promover um canibalismo. Ofereciam de tudo: terreno, construção de fábrica, até a compra de parte da produção. Sem risco, com praças mais desorganizadas e com salários menores, algumas empresas se foram. A mesma elite que aguçava a guerra fiscal e tirou empresas daqui, e também governou essa região, punha a culpa no movimento. E, como a gente tinha uma dificuldade na comunicação – aliás, a comunicação é um desafio para o movimento sindical até hoje –, não conseguíamos responder adequadamente para a sociedade.

Então você acha que o espaço da negociação também é uma conquista?
Por que uma empresa negocia? Porque você se consolidou como um poder dentro da fábrica. Se você não representasse nada, o patrão apenas impunha a vontade dele. Tem parcela do movimento sindical que não compreende isso. Eu trabalhava na Mercedes-Benz, que é alemã. Visitei a matriz, no final dos anos 1980. O pessoal dizia assim: “Você vai lá ver o que não deve fazer aqui, porque aquele pessoal é pelego, há 20 anos não faz uma greve”. E lá vi por que não tinha greve: porque, mesmo que tivesse algum conflito, cada centro de custo, cada departamento tem o seu representante sindical. Se surge um problema naquele departamento da empresa, vai passar por um representante local; ou chegar ao representante daquele prédio; para o representante da fábrica; para o conselho do sindicato. Se não resolver, há um setor do Judiciário que vai mediar o conflito e dar um parecer em uma semana. Então, antes de um problema se transformar numa greve, provavelmente se encontrará uma solução no meio do caminho. Quanto mais você cria espaços de diálogo e de negociação, menos greve vai ter.

A movimentação e o funcionamento dos sindicatos mudaram muito nesses anos todos, na prática, mas a estrutura sindical ainda está subordinada a uma legislação dos anos 1940.
Quando começou o processo de industrialização, a burguesia brasileira não quis uma democracia com distribuição de renda. Queria trazer o capital estrangeiro para cá e dar liberdade. “Venha para o Brasil instalar sua fábrica e ganhar dinheiro, não vai ter sindicato para encher seu saco.” E foi assim que o movimento sindical nasceu, para ser pequenininho e incapaz de influenciar tanto o rumo da fábrica quanto o rumo do país.

E agora, os sindicatos têm força para influenciar os rumos do país?
Passaram a ter um papel mais importante no governo Lula, porque há uma estratégia de desenvolvimento pela qual passam o combate à pobreza e uma melhor distribuição de renda. E Lula tem os sindicatos como interlocutores, como “nunca antes na história deste país”. Na minha opinião, não foi exatamente a força do movimento que conquistou essa posição, mas o movimento contribuiu para eleger um governo com essa característica democrática. Um estudo do Banco Mundial mostra que todos os países que alcançaram democracia forte e melhor distribuição de renda têm uma característica em comum: um movimento sindical forte. A reforma sindical não deu certo porque a proposta era muito boa, uma reforma dos sonhos.

Mas ela está morta e enterrada?
Eu acho que, da maneira como foi construída, está. Porque, se fosse aprovada, toda empresa teria de ter um comitê sindical instalado. E as relações de trabalho no Brasil não vão mudar em uma canetada. Uma parte do movimento sindical e do empresariado avançou e se modernizou. Os sindicatos, de trabalhadores e patronais, que não se conformaram com a estrutura sindical defendida por nós são sindicatos alijados no processo de desenvolvimento do país, que não precisam do trabalhador para existir, pois vivem do imposto sindical.

Sem contar que há ainda no Brasil um grande contingente de trabalhadores que não está entre os mais fortes e organizados.
Ninguém sabe ao certo o número de sindicatos no Brasil, se são 18 mil ou se já passaram dos 20 mil. Mas muitos só existem para recolher imposto sindical, não existem de fato, o trabalhador nem sabe quem é a sua liderança. Esses dias fui a uma metalúrgica do interior distribuir um material de apoio à chapa de oposição. Eu perguntava aos trabalhadores: “Você sabe quem é o presidente do seu sindicato?” Ninguém sabia. E o cara trabalha ali, naquela fábrica! Preside o sindicato há mais de 15 anos! Esta é a realidade: aquele sindicato existe para descontar imposto sindical e não fazer nada.

O sindicato patronal também arrecada muito imposto sindical?
Também. Se não fosse o imposto sindical, dificilmente a Fiesp teria aquele prédio na Avenida Paulista. Por isso que a reforma sindical, quando tentou acabar com esse imposto, enfrentou oposição dos dois lados.

E o movimento sindical está pronto para uma eventual era pós-Lula, a partir de 2011?
O ideal seria que o movimento sindical fosse forte o suficiente para, independentemente de quem seja o presidente da República, conseguir ser um importante interlocutor e discutir os rumos do país. Mas acho que o movimento sindical não tem essa força ainda. Um retrato do que pode acontecer está na atual crise financeira. Só aqueles sindicatos que de fato tentaram construir uma nova estrutura responderam, impondo a defesa do emprego e dos direitos à agenda do enfrentamento do crise. Portanto, perder a eleição no ano que vem será um retrocesso para o Brasil.

O movimento sindical tem aproveitado o bom momento, com democracia, crescimento econômico, e se preparado para intervir no futuro? Por exemplo, como o setor automotivo lida com um futuro em que o carro é um grande vilão na questão ambiental.
O automóvel não deveria ser a primeira opção de transporte no dia-a-dia. O seu carro, como se diz, é de passeio. No Brasil, a ausência do transporte coletivo de massa eficaz provoca o caos, a poluição. A busca de novos combustíveis e de novos conceitos de veículo é importante, inclusive, para a sobrevivência da indústria automobilística.

Em 2002, o Conselho Nacional de Meio Ambiente havia fixado para este ano o prazo para que os motores passassem a utilizar um diesel com menos enxofre e menos poluente. O prazo foi prorrogado para 2013.
Esse é mais um dos grandes desafios. Hoje o movimento sindical tem de se preocupar com a questão internacional, o meio ambiente, a tecnologia. No caso desses motores, as montadoras disseram que não tinham o combustível, portanto não podiam cumprir o prazo para a produção dos novos motores a diesel com baixa emissão.

O sindicato, os trabalhadores não podiam ter cobrado as montadoras, a Petrobras, o governo, quem fosse necessário, para que se cumprisse o prazo?
Na verdade, cobramos a montadora e a montadora apresentou o motor. O problema é que não tem como testá-lo, porque o combustível não existe.

A Petrobras pisou na bola?
Pisou. O que eu acho é que a questão ambiental nos força a discutir o modelo de desenvolvimento. Se cada ser humano tivesse o padrão de consumo da classe média daqui – automóvel, chuveiro, eletrodomésticos etc. –, você ia precisar de quatro planetas para dar sustentabilidade a isso. Então, esse padrão de vida e de consumo é para alguns, não é para todo mundo. O movimento sindical surgiu após a Revolução Industrial com dois grandes objetivos: melhorar a vida do trabalhador e caminhar para um mundo mais justo, mais equilibrado. Essa questão se perdeu e precisamos recuperá-la; é o tal do desenvolvimento sustentável. Está aí o debate futuro.

Há quem considere o cara que vira sindicalista um privilegiado. Como é a sua vida, a sua rotina?
Nunca me vi como dirigente sindical. Achava que tinha mais chances de ser jogador de futebol do que sindicalista. Mas quis ser metalúrgico, como meu pai. Entrei no Senai com 14 anos e fui trabalhar na Scania, como aprendiz. Um dia o Lula foi fazer uma assembleia na porta da fábrica e disse uma coisa que marcou minha vida: “O mal da classe trabalhadora brasileira é que produz riqueza e não discute o que é feito com ela. A gente tem de ser eficaz na produção, mas tem de discutir o que é feito com essa riqueza. E você não faz isso de maneira individual, você só faz isso de maneira organizada”. Eu percebi que o sindicato fazia parte da vida, assim como a escola e a igreja. Daí para a frente, não perdi uma manifestação de 1º de Maio, uma assembleia importante da categoria. Mas não esperava ser um dirigente. Queria ir para a faculdade quando, no final dos anos 1980, fui para a Mercedes-Benz. A gente tinha conquistado a comissão de fábrica por meio de uma greve e seria uma desmoralização se não tivesse candidato para se eleger, ocupar aquelas vagas. Então eu fui, achando que seria só por algum tempo. E hoje estou aqui, na presidência do sindicato.

E a vida é mansa?
O dia em que trabalho menos são umas 14 horas. O dirigente sindical não tem jornada – é dirigente de domingo a domingo. E o tamanho das coisas com que você tem de lidar? Falar de direito, lei, saúde dos trabalhadores, Mercosul, reestruturação nas empresas... Você é obrigado a conhecer muita coisa, ler, estudar muito. E a agenda é maluca, você é chamado para falar na universidade, tem a negociação de uma empresa, a assembleia de madrugada. Se você não tomar cuidado, acaba doente. Por exemplo, tem semana que não consigo almoçar. Aliás, ainda não almocei (olha para o relógio, que marca 17h).

E a relação com a família?
Tenho dois filhos, que só vejo aos domingos, não tem jeito. Eles estudam. Um tem 17 e o outro 20 anos. Eu estudo à noite também, Relações Internacionais, me formo este ano, se Deus quiser. Tenho muita sorte, porque minha companheira, a Juraci, sempre me apoiou para eu fazer tudo em que acredito. A relação de confiança e de apoio tem de ser forte. O número de divórcios no movimento sindical é muito alto...

E depois que entrou nesse mundo...
O cara que entra para o movimento sindical nunca vai voltar para a fábrica e ser o mesmo, o mesmo professor, o mesmo operário, o mesmo bancário. Nem há democracia nas empresas para isso. Então ele tem de se preparar. O movimento sindical é cruel, deixa pouco espaço para a vida social. Aliás, uma das coisas preocupantes no mundo do trabalho moderno é que o trabalho vai ocupando cada vez mais a vida das pessoas.

É como se costuma dizer entre os executivos: a pessoa precisa decidir se quer um relacionamento bem-sucedido ou uma carreira bem-sucedida.
Exatamente. É preciso tomar cuidado com isso, impor limites. A família é importante, os filhos são importantes.